quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Memórias de um Colonizado

Os ventos de outrora traziam consigo o ar puro e também os ruídos de um presente preste a cair em decadência. Apesar de tudo, o sentimento de liberdade era vogado pelos nossos antepassados. Nós aprendíamos a caçar, dançar, brincar, cantar e contar as lendas de nosso povo. Até que um dia brilhos estonteantes vieram da imensidão do mar. Todos ficaram assustados e, ao mesmo tempo, fascinados.             Ora, mas quem seriam os bem-aventurados a dominar tais técnicas de navegações? Quem seriam esses deuses a dominar as águas e porvir ao nosso encontro?
Por hora eles eram deuses, deuses que traziam consigo auréolas de outra civilização. Entretanto ao invés de darmos-lhes regalos, os acariciados fomos nós. Tais regalos brilhavam mais que a luz do sol. Nunca se havia visto algo tão exuberante e encantador. Não se sabia ao certo o que eram ou para que serviam, apenas se sabia que a beleza irradiava daquelas coisas tão pitorescas.
Após isso, surgiu a nossa primeira diferença: os deuses não possuíam o mesmo dialeto que nós. Então acreditamos que seriam aqueles vindos do além, mas logo a situação se alterou.
Logo nos vimos submissos aos deuses dos regalos, deuses que, agora, ao invés de dar, retiravam. Mas retiravam o que era nosso, coisas que tínhamos em nossas terras, vindas da mãe natureza, coisas que eram da nossa raiz. Não entendíamos muito bem o porquê de retirar aquelas árvores e colocar nos navios.
Aos poucos, os deuses já estavam tomando nossas casas, nossas mulheres, nossas famílias e tudo que fosse nosso. Tudo que outrora pertencia a nossa identidade, aos nossos hábitos e a nossa cultura. Logo chegaram deuses superiores, dizendo que deveríamos seguir as ordens de outro deus ainda mais forte que aqueles que aqui estavam.
 Assim vimos uma parte de nós ser afogada no sangue derramado daqueles que não aguentaram o que eles chamavam de trabalho. Aliais, eles adoravam nos dar nomes e ensinar o que eles falavam, nossos nomes eram tidos como índios, não tínhamos nomes próprios, apenas índios, selvagens e desvirtuosos.
Com o passar do tempo à situação dirigiu-se rumo ao abismo. Vimos outros de nós passando por tudo o que já havíamos passado, e mais e mais desses deuses chegavam da água. Havia mais deuses do que pessoas da nossa Terra, e os deuses ainda tinham filhos com nossas mulheres.
“A Criação” (2010) - Colagem do Artista Plástico Silvio Alvarez (E-mail: silvioalvarez@uol.com.br) – Acervo do Memorial dos Povos Indígenas – Brasília/DF.
Não deu para entender. Foi tudo tão rápido e tão devastador que nos deixou doentes, tristes, acorrentados e amedrontados. Não sabíamos o poder dos deuses lutar não adiantava, aliás, nada adiantou. E hoje já não podemos viver sem eles.
Hoje nós não temos muitos lugares para morar, eles tomaram tudo o que tínhamos para sobreviver. Alguns de nós são obrigados a morar na cidade, trabalhar, roubar, traficar e se prostituir, já outros de nós moram no que eles chamam de “aldeias urbanas”.
Tentamos ganhar dinheiro de qualquer forma, uma das maneiras é o que eles chamam de turismo. O turismo são aquelas pessoas que vem a nossa aldeia para nos ver dançar, comer, dormir e também vem para comprar o artesanato que fazemos.
Eles falam que o que fazemos é bonito é “cultura”. Mas na realidade não é mais o que eles chamam de “cultura”, pois não temos mais isso, não temos mais a vida que tínhamos antes dos Deuses chegarem.

Hoje fazemos tudo isso para ganhar alguns trocados e viver igual aos Deuses que nos ensinaram, vivemos e lutamos para ganhar nossos direitos e ter os mesmos que eles têm. Afinal tudo o que tínhamos foi tirado de nós.

Coluna Publicada na Revista Bragantina Online http://pt.scribd.com/doc/256056680/Revista-Eletronica-Bragantina-On-Line-Fevereiro-2015